Quem se atrever a negar que o desejo e a
lascívia pairam vitalícios sobre nós como a
fome sobrevoa dia e noite o estômago vazio,
e que o fracasso nada mais é do que um pouso
de emergência, tampouco saberá que os
minutos engatinham ladeira acima enquanto os anos
decolam nos seus fantásticos vôos
supersônicos, e que embarcar na tese do
tempo que flui é como deixar-se arrastar
pela esperança que nos veste e que nos
despe, que nos faz e nos destrói.
Quem se atrever a negar que a borboleta é
una águia guerreira, e que o pardal
é filho das suas
próprias circunstâncias, e que o perdão é
uma vacina que injeta nas nossas veias o
direito de recomeçar de zero, tampouco
saberá que viver é nadar contracorrente
enquanto se caminha de joelhos com os olhos
fechados sem sair do lugar, e que para
pensar sem medo de escorregar convém apertar
o cinto antes de começar essa viagem para
dentro de nós, e que para ganhar ou
perder é imperativo arriscar-nos em vôos
acrobáticos, ainda que terminemos
espatifados na beira de nós mesmos, lá bem
no fundo das perguntas sem resposta, sobre
os lençóis do leito nupcial do desatino.
Quem se atrever a negar que a vida é um vôo
cego sobre a pele de galinha de um instante,
tampouco saberá que o tempo é uma
enciclopédia que se escreve sem palavras;
que o orgasmo é um tremor que começa na
bainha da nossa libido e termina num
sincopado grito de alegria, e que a
felicidade é uma hecatombe inacabada, um
terremoto de reflexos carregados de
veemência que expelem pelos canais
competentes seus humores sagrados enquanto
jogam seus jogos candentes com cartas
marcadas molhadas de vida.
[O resto, todo o resto – não duvidem - é
pura Literatura. Só a Vida vivida é a versão
original de si mesma].
© Bruno Kampel