Eu aprendi que minha pátria não é uma alegoria
vestida com bandeiras e enfeitada com cinzelados
escudos.
Eu aprendi que minha pátria não é uma ideologia
unilateral ou uma filosofia integral ou uma
tomografia visceral.
Eu aprendi que no mapa de minha pátria não cabem
nem quartéis nem traidores nem profetas.
Eu aprendi que minha pátria é algo mais do que um
pano con un sol ou com um punhado de estrelas em
cujo nome morrem sempre os mais pobres, os mais
pretos, os mais índios, enquanto os outros engalanam
com bandeiras de todas as cores seus ajardinados e
bem cuidados orgulhos.
Eu aprendi que em minha pátria há lugar para todos
menos para os seus verdugos, porque eles vivem
pendentes do momento de poder agarrar as rédeas,
usando como argumento legitimador gritos ou
demagogia, tiros ou mentiras, fraude eleitoral ou
cruentas quarteladas.
Eu aprendi que minha pátria não é um hino, mas que é
tudo menos isso, porque ao compasso de seus acordes
se mata sem direito e se morre sem motivo.
Eu aprendi que minha pátria nem sequer é o fiel
reflexo de sua História, porque o passado é uma meia
verdade - que é a pior de todas las mentiras - que
se conta segundo o pensar e o entender de quem o
faça.
Eu aprendi que minha pátria é um pequeno grande
espaço de liberdade ocupado por gente como a gente,
que somada resulta num país no qual cabe quase tudo
menos a prepotência dos que tentam definí-lo ao seu
gosto e apropriar-se do direito de decidir quem faz
ou não parte dele.
Eu aprendi que a outra pátria que não é minha -
cuja geografia é o produto de lutas fratricidas ao
longo dos séculos - necessita soldados que requerem
fuzis e um tenente que os dirija, e esse tenente
carece de superiores que o instruam e uma carreira
militar que o forme e um futuro que le ofereça como
isca o generalato na linha de chegada. E assim, essa
pátria que não é minha tem que parir um exército que
precisa tanques e aviões e regimentos e heróis, e
então o suado dinheiro da gente não mais se destina
a hospitais ou escolas, a livros ou medicamentos,
mas à compra de modernos aviões de combate ou ao
pagamento da fatura da fábrica norte-americana de
canhões e de bombas cada vez mais inteligentes.
Mas isso não é tudo. Eu aprendi que essa pátria que
não é a minha necessita uma estrutura burocrática
para arrecadar impostos e impor condutas, e assim é
que surgem os governos famintos de poder e de
glória, e a conta do banquete é a gente que não
come quem a paga.
Eu aprendi que minha pátria é meu idioma, minhas
circunstâncias e meu entorno, onde não cabe mais do
que uma trinca de amigos verdadeiros, trinta e tres
parentes, cento setenta e oito conhecidos, um
território de oito ou nove quarteirões, alguns
edifícios e paisagens, um par de árvores com
seus passarinhos, uma praça com seus pombos
borboletas e jasmins, uma infância cheia de
mistérios e de risos e de amigos, um ontem cheio
de terraços e janelas habitados por grandes e
pequenos vasos carregados de gerânios, e também as
impressões digitais que os dias e suas noites vão
imprimindo em meu registro sensitivo.
Eu aprendi que minha pátria não tem pátria, porque é
un tremor bem no fundo do peito, um calar de emoção,
um poema insonoro, um silêncio de felicidade, um
mutismo de alegria, um discurso sem palavras, um
amor sem receita, um ser parte de um todo que é
parte de cada um.
Eu aprendi que na minha pátria não há heróis que
mereçam estátuas, a não ser os pobres explorados, as
crianças sem futuro, os tantos sem sequer um nome e
sobrenome pelo qual serem chamados.
Eu aprendi que na minha pátria não cabe nenhuma
pátria que se aprenda nas escolas, nenhuma pátria
que se ensine nos templos religiosos, nenhuma pátria
que se imparta nos quartéis, nenhuma pátria que se
venda nos quiosques, nenhuma pátria negociável na
Bolsa de Valores.
Eu aprendi que sou eu quem escolhe a minha pátria, e
não a pátria quem me escolhe.
Sim, eu aprendi a decidir hora por hora, dia-a-dia,
sonho sobre sonho, agonia após agonia, esperança
atrás de esperança, lágrima com lágrima, que minha
pátria é a vida e seus atores; que minha pátria é a
gente e suas fronteiras; que meus braços são a
pátria de todos os meus abraços e minhas mãos a
pátria de todas os meus afagos.
Aprendi que sou ela, porque eu a inventei na minha
vivência, porque eu a escolhi na minha experiência,
porque eu a aceitei nas minhas entranhas, porque
sim, porque sou o pai e o filho de minha pátria,
dessa pátria na qual sou o cacique e o índio,
o general e o soldado, o produto e o fator, um
verdadeiro cidadão de primeira.
Essa é a minha pátria. Esa é a minha única pátria. A
outra, não é nem pátria nem minha.
(Pobre de nós se deixarmos que os fabricantes da
desventura nos roubem o direito à utopia e a sonhar
e a viver a pátria que mais gostemos).
©Bruno Kampel