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Pode parecer paradoxal, mas
o fato de ser daltónico, ou
seja, a minha total
incapacidade de identificar
a presença
de algunas cores, animou-me
a empreender a tarefa de
pintar um quadro.
Assumida a reponsabilidade
que tal empreitada exigia,
dei licença
à criança
irreverente que vive num
cantinho da minha memória
para que escolhesse o pincel
e a aquarela, e nem bem os
apresentei à tela virgem que
curiosa aguardava sobre o
cavalete, os tres
incitaram-me numa só voz e
com olhares implorantes a
“cometer” a minha primeira
obra prima.
A puríssima brancura da tela
transformou-se num simples
fechar de olhos no cenário
sobre o qual tentaria que as
cores confessassem as suas
mais íntimas verdades, e com o pincel bem
guardado no bolso decidí
começar a desenhar na minha
imaginação uma cena que
merecesse a pena ser contada
com a ajuda de todas as cores do
alfabeto e com a colaboração
de todas as
letras do arco-íris.
Aproximei-me à “cena do
crime” e imediatamente
assaltou-me uma lembrança do passado
em preto e branco que exigia um
papel na obra que estava a
ponto de ser gerada, mas antes
que eu pudesse responder-lhe
ressoou uma voz saída do
tubo de tinta branca
insinuando a sua mais
firme oposição à simples
possibilidade de que o cinza lhe
fizesse sombra ouque o
preto invadisse os seus
domínios.
Antes mesmo de encontrar uma resposta a
tal desafio, constatei que
da ponta do pincel jorravam
palavras e mais palavras
sobre a esponja sedenta da
minha imaginação, a qual
imediatamente as transformou
num belíssimo espelho em prosa e
verso.
Apaguei a luz para poder ler
o discurso que o espelho
recitava, mas tão somente
pude ver refletida em seus
cristais uma tela
imaculadamente branca e
virgem esperando ser
estuprada por um pincel
abusado e indecente.
Aturdido pelo absurdo do
momento zanguei-me com todas
as cores, e imaginando o
resultado da mistura do
vermelho com o perdão e do
azul com a esperança e do
preto com o silêncio e do
verde com o cansaço,
finalmente terminei de
pintar o quadro que jamais
será pintado.
Antes de retornar a cumprir
a minha perpétua condena de
germinar contos e cinzelar
poemas, aproximei-me da tela
branca, e olhando-a com
verdadeiro amor paterno
assinei o meu nome no canto
inferior direito para que se
saiba quem foi o artista que
conseguiu dizer tanto sem
dizer nada. Confesso que me
sinto bastante orgulhoso da
minha obra, à qual batizei
com o nome de Arco Íris em
Sol maior para cegos, poetas
e charlatães.
© Bruno Kampel |